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Quem tem medo do Lobo Mau?

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Houve um tempo em que o medo infantil tinha estética e enredo. Morava debaixo da cama, no fundo do armário ou atrás da porta mal fechada. Chamava-se Bicho-Papão, Cuca, Homem do Saco. Eram monstros organizados, com funções claras: assustavam, educavam e depois iam embora. O folclore prestava um serviço público.

Naquele tempo, os perigos eram imaginários, mas a liberdade era concreta. Pulava-se o muro, jogava-se bola descalço e comia-se goiaba direto do pé, com bicho, poeira e nenhuma preocupação sanitária. A amizade nascia no “ato criminoso” de tocar a campainha e fugir. A dieta era simples: feijão com arroz durante a semana e, aos domingos, o macarrão da avó — sem rótulo nutricional e sem culpa.

Hoje, a infância foi terceirizada. O quintal virou aplicativo, a imaginação entrou em modo avião e o brincar agora exige Wi-Fi. O Lobo Mau foi aposentado por falta de audiência. Seus contos não resistiram à concorrência das notificações e dos vídeos de quinze segundos.

A modernidade mudou o elenco:

· Os Três Porquinhos agora são incorporadores imobiliários.

· Chapeuzinho Vermelho fez um rebranding e trocou o capuz por grifes internacionais.

· O Lobisomem, desorientado entre prédios e poluição luminosa, mal encontra a lua cheia — e, quando a encontra, prefere não sair. Segurança em primeiro lugar.

E então, quem tem medo do Lobo Mau? Talvez ninguém. O medo de hoje não rosna, não sopra casas e não avisa que chegou. Ele envia boletos, reajustes e “avisos importantes”. Veste terno, fala difícil e promete mundos e fundos em ano eleitoral. Não precisa de floresta — atua muito bem em salas refrigeradas.

Vivemos em casas trancadas, protegidos do mundo e reféns da rotina. A criança não sai para brincar; o adulto sai apenas para trabalhar. A Cuca não pega mais quem não quer dormir. Ela espera acordada, sentada na fatura do cartão de crédito.

O Lobo Mau era previsível. Batia à porta, soprava e pronto. O medo contemporâneo é educado, silencioso e persistente. Ele não uiva, não corre atrás. Apenas ocupa espaço, consome tempo e cobra juros.

O Lobo Mau virou personagem inofensivo de livro infantil. Já o lobo de hoje? Ele assina contratos, parcela em doze vezes e nos tira o sono sem precisar, sequer uma vez, mostrar os dentes.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia



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Proteger a vida das mulheres é uma responsabilidade do Estado

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O Dia Internacional da Mulher não pode ser apenas uma data de homenagens. Ele precisa ser, antes de tudo, um momento de reflexão sobre a realidade que milhares de brasileiras ainda enfrentam todos os dias. Infelizmente, os números mais recentes mostram que a violência contra a mulher continua sendo uma das mais graves feridas sociais do país.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025. O aumento foi de 4,7% em relação ao ano anterior. O dado mais alarmante revela que oito em cada dez assassinatos são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Em muitos casos, o lugar mais perigoso para uma mulher ainda é dentro da própria casa.

A maioria dos crimes ocorre na residência da vítima e quase metade é cometida com objetos comuns, como facas. Isso mostra que o feminicídio não é um ato isolado. Ele é, na maioria das vezes, o resultado final de um ciclo prolongado de violência, ameaças e agressões.

Como procuradora da Mulher na Câmara dos Deputados, tenho buscado transformar essa preocupação em ações concretas. Ao longo do último ano, representei o Brasil em encontros internacionais do BRICS para levar ao debate global a realidade enfrentada pelas mulheres brasileiras. Também percorremos diferentes estados por meio da Procuradoria Itinerante, apoiando vereadoras na criação de Procuradorias da Mulher em seus municípios.

Somente em Mato Grosso e sob minha gestão, a Procuradoria auxiliou na implantação de mais de 50 Procuradorias da Mulher, ampliando a rede institucional de acolhimento e encaminhamento de denúncias. Esse trabalho é essencial porque a presença dessas estruturas nos municípios facilita o acesso das vítimas à orientação jurídica, ao acolhimento e ao encaminhamento das denúncias.

Também tenho buscado fortalecer parcerias com instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, com o objetivo de ampliar a proteção institucional às mulheres e combater diferentes formas de violência, incluindo a violência política.

No Supremo Tribunal Federal cobrei que o governo federal apresente planos concretos e eficazes de enfrentamento à violência contra a mulher. Não basta reconhecer o problema. É preciso agir com seriedade, planejamento e compromisso.

Campanhas de conscientização como Agosto Lilás, Outubro Rosa e Banco Vermelho também têm papel importante ao chamar a atenção da sociedade para o problema. No entanto, campanhas precisam caminhar ao lado de políticas públicas consistentes, estrutura de atendimento e aplicação rigorosa da lei.

Enfrentar a violência significa punir o agressor. Prevenir significa acolher e proteger a vítima. Esse é o caminho para salvar vidas. Neste Mês da Mulher, mais do que celebrar conquistas, precisamos reafirmar um compromisso coletivo. Nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa. Proteger a vida das mulheres é uma responsabilidade de todos, mas sobretudo do Estado. E essa responsabilidade não pode esperar.

Coronel Fernanda é deputada federal e Procuradora da Mulher na Câmara dos Deputados



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