Opinião
Dois hábitos silenciosos que sabotam o controle da glicose
Opinião
O controle adequado da glicose no sangue é um dos pilares para a prevenção de complicações associadas ao diabetes, uma condição crônica que afeta milhões de pessoas e que exige acompanhamento contínuo, mudanças de estilo de vida e, muitas vezes, tratamento medicamentoso.
Mesmo pacientes que seguem corretamente a prescrição médica podem enfrentar dificuldades para manter níveis glicêmicos estáveis, muitas vezes por hábitos cotidianos que passam despercebidos, mas exercem impacto direto sobre o metabolismo da glicose.
Um dos fatores que mais prejudicam o controle glicêmico é o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, mesmo quando ingeridos em pequenas quantidades de forma regular ou sob a falsa percepção de serem inofensivos. Esses produtos são ricos em açúcares simples, farinhas refinadas e aditivos químicos, o que favorece picos rápidos de glicose no sangue, seguidos de quedas abruptas.
Esse padrão de variação glicêmica sobrecarrega o pâncreas e dificulta a ação adequada da insulina. Além disso, o consumo regular de ultraprocessados contribui para processos inflamatórios e para o aumento da resistência à insulina, mecanismo central no desenvolvimento e na progressão do diabetes tipo 2.
Muitas vezes, o paciente reduz doces evidentes, mas mantém alimentos industrializados no dia a dia, comprometendo silenciosamente o controle da glicemia.
Outro hábito bastante comum e igualmente prejudicial é a irregularidade nos horários das refeições, especialmente quando associada a longos períodos de jejum não planejado ou sem orientação profissional ou a refeições concentradas em grandes volumes no final do dia. O organismo responde melhor quando existe previsibilidade metabólica, com horários mais regulares para se alimentar.
Pular refeições ou permanecer muitas horas sem comer sem planejamento adequado pode levar a oscilações importantes da glicemia, favorecendo tanto episódios de hipoglicemia quanto elevações acentuadas do açúcar no sangue após a alimentação.
Esse comportamento desorganiza a liberação de insulina e de outros hormônios envolvidos no controle glicêmico, dificultando o manejo da doença mesmo quando o tratamento medicamentoso está correto.
O controle da glicose não depende apenas de medicamentos ou de restrições extremas, mas de escolhas diárias que envolvem alimentação, rotina e autocuidado. Ajustes simples, quando bem orientados, podem gerar impactos positivos significativos nos exames e na qualidade de vida.
O acompanhamento regular com o endocrinologista é fundamental para identificar esses hábitos, orientar mudanças individualizadas e construir um controle glicêmico mais seguro, sustentável e alinhado à realidade de cada paciente ao longo do tempo.
Mariana Ramos é endocrinologista
Opinião
Proteger a vida das mulheres é uma responsabilidade do Estado
O Dia Internacional da Mulher não pode ser apenas uma data de homenagens. Ele precisa ser, antes de tudo, um momento de reflexão sobre a realidade que milhares de brasileiras ainda enfrentam todos os dias. Infelizmente, os números mais recentes mostram que a violência contra a mulher continua sendo uma das mais graves feridas sociais do país.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025. O aumento foi de 4,7% em relação ao ano anterior. O dado mais alarmante revela que oito em cada dez assassinatos são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Em muitos casos, o lugar mais perigoso para uma mulher ainda é dentro da própria casa.
A maioria dos crimes ocorre na residência da vítima e quase metade é cometida com objetos comuns, como facas. Isso mostra que o feminicídio não é um ato isolado. Ele é, na maioria das vezes, o resultado final de um ciclo prolongado de violência, ameaças e agressões.
Como procuradora da Mulher na Câmara dos Deputados, tenho buscado transformar essa preocupação em ações concretas. Ao longo do último ano, representei o Brasil em encontros internacionais do BRICS para levar ao debate global a realidade enfrentada pelas mulheres brasileiras. Também percorremos diferentes estados por meio da Procuradoria Itinerante, apoiando vereadoras na criação de Procuradorias da Mulher em seus municípios.
Somente em Mato Grosso e sob minha gestão, a Procuradoria auxiliou na implantação de mais de 50 Procuradorias da Mulher, ampliando a rede institucional de acolhimento e encaminhamento de denúncias. Esse trabalho é essencial porque a presença dessas estruturas nos municípios facilita o acesso das vítimas à orientação jurídica, ao acolhimento e ao encaminhamento das denúncias.
Também tenho buscado fortalecer parcerias com instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, com o objetivo de ampliar a proteção institucional às mulheres e combater diferentes formas de violência, incluindo a violência política.
No Supremo Tribunal Federal cobrei que o governo federal apresente planos concretos e eficazes de enfrentamento à violência contra a mulher. Não basta reconhecer o problema. É preciso agir com seriedade, planejamento e compromisso.
Campanhas de conscientização como Agosto Lilás, Outubro Rosa e Banco Vermelho também têm papel importante ao chamar a atenção da sociedade para o problema. No entanto, campanhas precisam caminhar ao lado de políticas públicas consistentes, estrutura de atendimento e aplicação rigorosa da lei.
Enfrentar a violência significa punir o agressor. Prevenir significa acolher e proteger a vítima. Esse é o caminho para salvar vidas. Neste Mês da Mulher, mais do que celebrar conquistas, precisamos reafirmar um compromisso coletivo. Nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa. Proteger a vida das mulheres é uma responsabilidade de todos, mas sobretudo do Estado. E essa responsabilidade não pode esperar.
Coronel Fernanda é deputada federal e Procuradora da Mulher na Câmara dos Deputados
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